SER PÁSSARO SEM PODER VOAR

SER PÁSSARO SEM PODER VOAR
outubro 22, 2021 zweiarts

SER PÁSSARO SEM PODER VOAR

Arlette Kalaigian, Claudio Souza, Corina Ishikura, Cris Canepa, Cyra Moreira, Denis Moreira, Dolly Michailovska, Erica Iassuda, Fabio Hanna, Heloisa Lodder, Juliana Baumann, Jussara Marangoni, Luciana Boaventura, Olavo Tenório, Rosa Grizzo, Rosana Pagura e Tuca Chicalé Galvan.

Curadoria
Paulo Gallina

Período Expositivo: de 25/09 à 22/10/2021

“Firme, imóvel, exposta aos fenômenos atmosféricos a ponto de se confundir com eles. Suspensa no ar sem nenhum esforço, sem precisar contrair um só músculo. Ser pássaro, sem poder voar. (…) Tudo conspira para sua existência, da estrutura anatômica à fisiologia geral, passando por sua história e a de todas as escolhas da evolução ao longo de milênios”.
Emmanuel Coccia.

 

Nesta exposição, nós – o coletivo formado pela somatória entre artistas, gestores, produtores, montadores e curador – esperamos estimular um mergulho no universo humano contido pela pele. Depois de uma quarentena de quase dois anos, todos precisamos de uma catarse estimulada pelo contato. Entretanto, talvez antes de fazê-la (i. e. a catarse), seja bom apaziguarmo-nos com o que se cultivou nesse meio tempo. A atividade artística, aqui, está apresentada na metáfora do voo destes pássaros humanos que já não sabem voar [seguindo, com sorte, alguma tradição que nos leve de volta ao Salto no vazio de Yves Klein].

A exposição, em si, divide-se em quatro atos: morte, o sensível transformado em linguagem, o retorno ao real e o espelho do mundo. Respectivamente, as partes estão colocadas no átrio, sala expositiva um, jardim e sala expositiva dois.

No átrio, há uma meditação sobre o fim secreto de todas as coisas: a morte ou o retorno à matéria inerte. O impedimento final, o maior segredo de todos os tempos, está apresentado tanto no impedimento atravessado de frestas de Heloisa Lodder, quanto na delicadeza da instalação de Arlette Kalaigian ou das pinturas de Fábio Hanna e de Juliana Baumann.

Na sala expositiva para qual se tem acesso [a sala um], o olho vaga. Em sua divagação, ele (i. e. o olho) comporta-se como o gesto do artista. Neste movimento naturalmente especulativo, o sujeito que observa [assim como o artista] cria significado a partir tanto do conjunto de experiências vividas [portanto, pessoais e intransferíveis], quanto do que está posto ao redor. É aqui que os sentidos desses sujeitos que observam são estimulados em vão por imagens que relutam a tornarem-se parte do mundo. Sempre retornando à matéria e a conformidade construída por escolhas de um outro, um desconhecido. Esse processo se dá na busca através da técnica [nesta sala há uma certa predominância da pintura] e do alertar sobre os perigos e prazeres que a fantasia e a imaginação podem promover.

No espaço do jardim, temos obras que elaboram a hiper-realidade de Jean Baudrillard reiterando que real é o que se experimenta, todo o resto é estimulo validado por experiência e conduta.
Por fim, na sala d’o espelho do mundo, com sua montagem rebuscada que coloca as obras em composição, espera-se formular uma ponte entre este eu preso dentro da pele e este mundo, absolutamente humano, que está aqui, ao redor, agora. Ao atravessar essa vereda profunda conosco, nos encontremos novamente na luz do sol que há de chegar. Ainda que a noite seja mais escura antes do amanhecer, nunca nos esqueçamos do Coração sorridente de Charles Bukowski:

“A sua vida é a sua vida,/ não deixe-a ser disfarçada em fria submissão./ Esteja atento!/ Existem outros caminhos./ Existe uma luz, em algum lugar./ Pode não ser muita luz,/ ainda assim, ela supera a escuridão./ Esteja atento!/ Os deuses lhe oferecerão chances./ Reconheça-as./ Tome-as./ Não se pode vencer a morte./ Mas você pode vencer a morte em vida./ Às vezes./ E quanto mais vezes você aprender a fazê-lo,/ mais luz haverá./ A sua vida é a sua vida./ Saiba enquanto você respira./ Você é maravilhoso(a)./ Os deuses esperam para se deliciarem/ Através de você, dentro de você.”

 

Paulo Gallina

¹. [A afirmação, que intitula esta mostra, nos foi dada por Emmanuele Coccia em seu texto A vida das plantas: uma metafísica da mistura. E é Coccia quem nos presenteia com nossa epígrafe.]

². Ainda que algumas palavras tenham sido suprimidas no último período, o texto encontra-se mais ou menos como apresentado nesta epígrafe em: COCCIA, Emmanuele. A vida das plantas: uma metafísica da mistura. Florianópolis: Cultura e barbárie, 2018.

³. Uma pequena citação aqui, com sorte, nos fará entender esse pássaro. Pássaro Azul, de Charles Bukowski: “Há um pássaro azul em meu peito que quer sair/ mas sou duro demais com ele,/ eu digo, fique aí,/ não deixarei que ninguém o veja./ Há um pássaro azul em meu peito que quer sair,/ mas eu despejo uísque sobre ele e inalo fumaça de cigarro/ e as putas e os atendentes/ dos bares e das mercearias/ nunca saberão que ele está lá dentro./ Há um pássaro azul em meu peito que quer sair,/ mas sou duro demais com ele,/ eu digo, fique aí,/ quer acabar comigo?/ Quer foder com minha escrita?/ Quer arruinar a venda dos meus livros na Europa?/ Há um pássaro azul em meu peito que quer sair/ mas sou bastante esperto,/ deixo que ele saia somente em algumas noites/ quando todos estão dormindo./ Eu digo, sei que você está aí./ Então, não fique triste./ Depois eu coloco ele de volta em seu lugar,/ mas ele ainda canta um pouquinho/ lá dentro./ Não deixo que morra completamente/ e nós dormimos juntos,/ assim./ Com nosso pacto secreto/ e isto é bom o suficiente para fazer um homem adulto chorar,/ mas eu não choro./ E você?”.

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